Lá estava eu, como todas as outras noites, deitado na minha cama olhando pro pôster dos Beatles no teto do quarto. Cada dobra do lençol conta uma história diferente, tem uma memória diferente. São memórias indo e vindo de um passado tão distante mas que ainda machucava e rasgava como se tudo tivesse acontecido há poucos dias. Todos os nossos fantasmas me assombrando; nossos lugares, nossos amigos, nossas manias… Hoje tudo tão não-nosso.
O celular toca, vejo na tela o nome do meu melhor amigo. Não consigo entender como ele ainda não se cansou de mim, como ele ainda continua insistindo. Até eu já cansei de mim. Demoro pra atender pois sabia o motivo da ligação e queria evitar aborrecimentos. Mas no sétimo toque acabo atendendo:
- E aí, cara. Tamo aqui no barzinho já, aquele perto da faculdade, mas se tu vier pela zona sul tem que fazer o retorno antes da padaria do…- Não vou, Fernando.- Vai negar umas cervejas com os amigos? Tem muita guria aqui.- Não, valeu.Escuto uns resmungos e suspiros sem paciência. No fundo, o barulho do bar que parece estar animado.
- Cara, eu não te reconheço mais. Ninguém te reconhece mais.
Eu já sabia disso, mas ouvir a verdade sempre dói mais. Desliguei o telefone sem ao menos dizer “tchau” e coloquei meus fones de ouvido. Pra ajudar, a primeira música do aleatório foi aquela que eu tanto tento evitar, aquela que foi a trilha sonora de todo o tempo que ficamos juntos, aquela que, simplesmente, não tem mais sentido algum.
O sono vai chegando mas tu não sai dos meus pensamentos. E o meu maior desejo é não sonhar com você, não de novo. É horrível, pois te tenho tão perto de mim e de repente, quando acordo, ganho aquele balde de água fria e aquela visão da minha cama vazia.
Pego meu celular e abro as mensagens. As tuas ainda estão lá. “01/07/2010 - 12h34: Estou chegando aí, amor. Amo você.” Eu lembro desse dia. Lembro de como tu chegou aqui em casa, lembro do teu vestido, do teu sorriso… Ah, esse teu sorriso. Sinto falta de como ele era tão meu, de como você era tão minha. Lembro da pizza que estava contigo e da nossa guerra de comida. Lembro de como assistimos filme até o fim da tarde que foi quando tu recebeu uma ligação - que até hoje não sei de quem foi - te chamando pra algum lugar. E tu? Tu simplesmente foi. Mas, amor, tu deveria ter ficado.
