terça-feira, 17 de setembro de 2013

Bolha de sabão


De repente o mundo real parece afastado. O olhar se fixa em algo qualquer e a visão aos poucos vai embaçando. Presa em uma bola de sabão. Exterior colorido, interior vazio. Uma fina película a separa da realidade e a faz voar. Mas qual o sentido de voar se sabe que antes de alcançar o céu irá estourar? Por que aceita voar por um tempo tão curto? É apenas uma fuga... Foi apenas mais uma tentativa de conseguir a paz do céu azul.

Ela não pode encostar em nada, um vento mais forte a destruiria. ‘Longe, longe da realidade, por favor’, ela implorava pra ficar.

A bolinha parecia dançar com o vento, brincar com a gravidade e zombar dos que não conseguiam tirar os pés do chão. ‘Mais sorte ainda tem os pássaros’ pensava enquanto invejava brandamente as aves que voavam acima dela.

No ar, com suas cores translúcidas e formato exato parecia tão perfeita, soberba, parecia debochar da preocupação humana diária. Mas ela nasceu assim, ela foi feita para embelezar, ser admirada, porém, ter vida curta.

Consegue imaginar uma bola de sabão toda sensível a toque ou sopro mais forte, com vida longa? Não seria nada fácil cuidar de algo tão delicado. Requer muita atenção, paciência, vigília... E em resumo: amor. Como amar eternamente uma bola de sabão? Como cuidar dela? Ela debocha dos defeitos com seu formato perfeito, ela voa e ainda se protege da dura realidade com apenas uma camada fina de água e sabão; ela afasta-se com uma brisa de quem a criou e a admira, e ela é sozinha.

É o que pensam quando a veem. Mas ela carrega dentro do invisível, as partículas de quem a deu vida, ela também vê o mundo depois da camadinha que a recobre. Ela quer a realidade, mas não pode ter, seria o fim de sua existência perfeita. Ela não escolhe para que lado correr, quem decide seu destino e velocidade é o vento, ela é só uma bolinha no ar, só mais uma que ao explodir irá desaparecer. Ela não inveja os pássaros por suas asas, mas por sua livre escolha de voar e pousar onde desejarem, Inveja-os por cantarem, pela expressão que transmitem no canto.

Ter frio, calor, sentir a grama úmida, a areia da praia, ouvir os sons reais, os sons além daquele estúdio fechado com péssima acústica que a cercava, sentir os gostos, os cheiros das comidas bonitas postas à mesa, receber a lambida de um cachorro ou o afago de um gato, assistir um filme antigo em branco e preto ou ao menos enxergar as cores definidas... A realidade pode ser tão cruel e tão encantadora ao mesmo tempo! Por que nasceu bola de sabão?  Por que encantadora, porém presa e ainda por algo tão facilmente destruído? Poderia ser qualquer outra bola. De gude para brincar com as crianças, de futebol balançando a rede nos jogos, poderia ser uma bolinha de vidro tomando o lugar do olho que falta no rosto do pirata, ou mesmo uma bolinha sem graça de gel embaixo de flores artificiais enfeitando e recepcionando pra sempre as visitas em uma sala. Será que quem a criou pensou nisso antes de separar ar, água e sabão do chão?

O menino que assoprou levemente o canudinho embebido em sabão e água nem imagina a intenção da bolinha sobrevoando sua cabeça. O vento tenta a afastar, mas ela insiste em ficar perto de seu criador. Enquanto ele admira sua bolinha transparente e colorida, sua obra, seu sopro, o tempo de vida da bola acaba. Ela explode em milhares de gotículas pelo ar, caindo sutil e vingativamente nos olhos do menino. Seus olhinhos ardem, mas ele não chora.

Escrito por: Kalline Sakurada

2 comentários:

  1. Adorei o3o
    Já estou seguindo...

    Beijos,
    Bia

    on http://relatosdeparis.blogspot.com.br/
    Espero sua visita :)

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  2. Beijo na bochecha de quem compartilhou ou deu um like como reconhecimento, muito obrigada <3

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