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segunda-feira, 29 de julho de 2013

Um novo cara.


De repente... Te esqueci. E não foram segundos ou minutos como costumava acontecer. Foram horas. Horas mesmo. Na verdade, só fui me dar conta agora, depois de um dia inteiro sem nenhuma partícula de ti em mim. Imagino que esteja tão pasmo quanto eu. Quem dera a guria mais carente do mundo esquecendo o cara da vida dela. Mas é, foi o que aconteceu.

Isso porque outros olhos, tão lindos quanto os teus, me olharam por todas essas horas. É porque outra voz, levemente mais aveludada que a sua, contou-me piadas que me fizeram rir tão alto que a vizinhança toda pode ouvir.

E aquele sentimento de não te pertencer mais deixou-me tão aliviada que pensei nunca mais precisar te ouvir, nem te abraçar, ou te olhar, ou te beijar. Porque aquilo estava fazendo-me bem. Tão bem que talvez este novo cara seja meu mais novo vício. Assim como é possível que este meu mais novo vício me faça esquecer de vez o meu antigo (você, diga-se de passagem). O que me assusta um pouco, já que nunca pensei na possibilidade de te esquecer. Mas que também me deixa feliz, já que finalmente não me importo com o "nós" como você também não se importava.

Não estou trocando-te. Estou respirando novos ares. Talvez ele tenha entrado na minha vida na hora certa. Isso é considerado amizade por interesse? Espero que não, pois nunca me senti tão bem por tão longo período de tempo. E ele é o culpado disso tudo. Ou talvez você em primeiro lugar. Então, de certa forma, obrigada por ter feito-me encontrar esse cara. Quem sabe ele não vê em mim o que você nunca viu?

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Seu amor sem jeito.



     Ela não tinha jeito. Apaixonava-se pelos piores rapazes. Os incompreendidos e oprimidos - que realmente não tinham chance na vida - faziam parte do topo da sua lista de desejos. Quando a reprimiam por dar tanto de si por nada em troca, ela baixava a cabeça e saia, deixando qualquer um sem uma explicação sequer. Afinal, nem ela entendia direito o tamanho da sua obsessão pelos delinquentes. Apenas havia algo neles que a atraia. Seus amigos, aqueles que nunca tentaram entender todos os seus atos de "bondade", acreditavam que tudo aquilo era culpa dos pais que nunca estiveram com ela de verdade. No entanto ela nunca fora, para todos aqueles rapazes, o tipo de mãe que abrigava mil crianças num casebre abandonado. Ela era do tipo que observava os mais moribundos nos becos da cidade, escolhia o de pior situação e chegava de manso, fingindo estar interessada no cigarro e por vezes na heroína. Mesmo rodeada de tamanhas drogas, nunca experimentou nenhuma, apenas por não ter vontade. Não era viciada. Longe disso. Só queria ficar ao lado de quem pouco vivia a vida.
     Tentou infinitas vezes tirar todos seus amantes e amores dessas vidas desgraçadas, e em todas as vezes... Falhou. Quando estava com João (que carinhosamente fora apelidado de Raposo) estava prestes a tirá-lo daquele mundo para trazê-lo à vida real, só que no último minuto encontrou-o perto da sua lanchonete preferida, estatelado no chão frio de uma madrugada de novembro. Overdose. Fora disso que ele e mais dois de seus namorados morreram desde o início da sua interminável jornada. Raposo era o mais controlado e ainda assim se desesperou. Morreu. Assim. Rápido. Pausado.
     Ela? Chorou até não ter mais lágrimas. Se tornara rotina depois de anos. A maioria chegou a amá-la e desejá-la para o resto de suas vidas, alguns se foram sem nem tentar, outros desistiram no primeiro mês, alguns terminavam por achá-la dedicada demais ao que já estava por um fio, e outros, como Raposo, tentaram de verdade, mas não conseguiram. 
     Depois de muito, ela decidiu não desistir. Não tinha culpa se nunca de apaixonou pelo certinho, pelo galã, pelo educado. No fundo ela queria fazer qualquer bem para a sociedade. Para ela mesma. E era assim que ela viveria. Por Raposo, Thiago, Marcolino ou Mateus. Por todos aqueles que fizeram-na feliz durante suas breves estadias. Porque era apenas eles que ela conseguia amar. Do jeito dela. Sem jeito.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A última carta.


Meu nome é Patrícia, tenho 17 anos, e encontro-me no momento quase sem forças, mas pedi para a enfermeira Dane minha amiga escrever esta carta que será endereçada aos jovens de todo o Brasil, antes que seja tarde demais: Eu era uma jovem ‘sarada’, criada em uma excelente família de classe média alta Florianópolis. Meu pai é Engenheiro Elétrico de uma grande estatal e procurou sempre para mim e para meus dois irmãos dar tudo de bom e o que tem e melhor, inclusive liberdade que eu nunca soube aproveitar.
Aos 13 anos participei e ganhei um concurso para modelo e manequim para a Agência Kasting e fui até o final do concurso que selecionou as novas Paquitas do programa da Xuxa. Fui também selecionada para fazer um Book na Agência Elite em São Paulo. Sempre me destaquei pela minha beleza física, chamava a atenção por onde passava. Estudava no melhor colégio de ‘Floripa’, Coração de Jesus. Tinha todos os garotos do colégio aos meus pés. Nos finais de semana frequentava shopping, praias, cinema, curtia com minhas amigas tudo o que a vida tinha de melhor a oferecer ás pessoas saradas, física e mentalmente. Porém, como a vida nos prega algumas peças, o meu destino começou a mudar em outubro de 2004. Fui com uma turma de amigos para a OKTOBERFEST em Blumenau. Os meus pais confiavam em mim e me liberaram sem mais apego.
Em Blumenau, achei tudo legal, fizemos um esquenta no ‘Bude’, famoso barzinho na Rua XV. Á noite fomos ao ‘PROEB’ e no ‘Pavilhão Galego’ tinha um show maneiro da Banda Cavalinho Branco. Aquela movimentação de gente era trimaneira”. Eu já tinha experimentado algumas bebidas, tomava escondido da minha mãe o Licor Amarula, mas nunca tinha ficado bêbada. Na quinta feira, primeiro dia e OKTOBER, tomei o meu primeiro porre de CHOPP. Que sensação legal curti a noite inteira ‘doidona’, beijei uns 10 carinhas, inclusive minhas amigas colocavam o CHOPP numa mamadeira misturado com guaraná para enganar os ‘meganha’, porque menor não podia beber; mas a gente bebeu a noite inteira e os otários não percebiam.
Lá pelas 4h da manhã, fui levada ao Posto Médico, quase em coma alcoólico, numa maca dos Bombeiros.. Deram-me umas injeções de glicose para melhorar. Quando fui ao apartamento quase ‘vomitei as tripas’, mas o meu grito de liberdade estava dado. No dia seguinte aquela dor de cabeça horrível, um mal estar daqueles como tensão pré-menstrual. No sábado conhecemos uma galera de S. Paulo, que alugaram um ap’ no mesmo prédio. Nem imaginava que naquele dia eu estava sendo apresentada ao meu futuro assassino. Bebi um pouco no sábado, a festa não estava legal, mas lá pelas 5:30 h da manhã fomos ao ‘ap’ dos garotos para curtir o restante da noite.
Rolou de tudo e fui apresentada ao famoso baseado ‘Cigarro de Maconha’, que me ofereceram. No começo resisti, mas chamaram a gente de ‘Catarina careta’, mexeram com nossos brios e acabamos experimentando. Fiquei com uma sensação esquisita, de baixo astral, mas no dia seguinte antes de ir embora experimentei novamente. O garoto mais velho da turma o ‘Marcos’, fazia carreirinho e cheirava um pó branco que descobri ser cocaína. Ofereceram-me, mas não tive coragem naquele dia. Retornamos a ‘Floripa’ mas percebi que alguma coisa tinha mudado, eu sentia a necessidade de buscar novas experiências, e não demorou muito para eu novamente deparar-me com meu assassino ‘DRUGS’. Aos poucos, meus melhores amigos foram se afastando quando comecei a me envolver com uma galera da pesada, e sem perceber, eu já era uma dependente química, a partir do momento que a droga começou a fazer parte do meu cotidiano.
Fiz viagens alucinantes, fumei maconha misturada com esterco de cavalo, experimentei cocaína misturada com um monte de porcaria. Eu e a galera descobrimos que misturando cocaína com sangue o efeito dela ficava mais forte, e aos poucos não compartilhávamos a seringa e sim, o sangue que cada um cedia para diluir o pó.
No início a minha mesada cobria os meus custos com as malditas, porque a galera repartia e o preço era acessível. Comecei a comprar a ‘branca’ a R$ 10,00 o grama, mas não demorou muito para conseguir somente a R$ 20,00 a boa, e eu precisava no minimo 5 doses diárias. Saía na sexta-feira e retornava aos domingos com meus ‘novos amigos’. as vezes a gente conseguia o ‘extasy’, dançavamos nos ‘Points’ a noite inteira e depois… farra!
O meu comportamento tinha mudado em casa, meus pais perceberam, mas no início eu disfarçava e dizia que eles não tinham nada a ver com a minha vida…
Comecei a roubar em casa pequenas coisas para vender ou trocar por drogas… Aos poucos o dinheiro foi faltando e para conseguir grana fazia programas com uns velhos que pagavam bem. Sentia nojo de vender o meu corpo, mas era necessário para conseguir dinheiro.
Aos poucos toda a minha família foi se desestruturando. Fui internada diversas vezes em Clínicas de Recuperação. Meus pais, sempre com muito amor, gastavam fortunas para tentar reverter o quadro. Quando eu saía da Clinica aguentava alguns dias, mas logo estava me picando novamente. Abandonei tudo: escola, bons amigos e família.
Em dezembro de 2007 a minha sentença de morte foi decretada; descobri que havia contraído o vírus da AIDS, não sei se me picando, ou através de relações sexuais muitas vezes sem camisinha. Devo ter passado o vírus a um montão de gente, porque os homens pagavam mais para transar sem camisinha.
Aos poucos os meus valores, que só agora reconheço, foram acabando, família,amigos, pais, religião, Deus, até Deus, tudo me parecia ridículo.
Meu pai e minha mãe fizeram tudo, por isso nunca vou deixar de amá-los. Eles me deram o bem mais precioso que é a vida e eu a joguei pelo ralo. Estou internada, com 24 kg, horrível, não quero receber visitas porque não podem me ver assim, não sei até quando sobrevivo, mas do fundo do coração peço aos jovens que não entrem nessa viagem maluca… Você com certeza vai se arrepender assim como eu, mas percebo que é tarde demais pra mim.
OBS.: Patrícia encontrava-se internada no Hospital Universitário de Florianópolis e a enfermeira Danelise, que cuidava de Patrícia, veio a comunicar que Patricia veio a falecer 14 horas mais tarde depois que escreveram essa carta, de parada cardíaca respiratória em consequência da AIDS.

Ps: A carta é real.
Ps²: Imagem meramente ilustrativa.

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