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quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Carta para uma Thais adulta.


14 de dezembro de 2013

Querida Thais do futuro,

Como você está?

Hoje é seu aniversário! Quantos verões você já comemorou desde o dia em que eu escrevi isto pela primeira vez? Já conseguiu conquistar todas as metas da sua vida? Você ainda lembra para quantas pessoas prometeu sua amizade eterna? Você pelo menos ainda mantém um mínimo de contato com eles? Porque eles eram seus melhores amigos e você até chorou quando foi embora. Você lembra quem são eles, e lembra dos seus sobrenomes e suas personalidades? Você conheceu novas pessoas? Abandonou as outras? Você sabe o quanto no fundo eu queria que fosse pra sempre. Por falar nisso, continua desacreditando no pra sempre? Você descobriu se aqueles seus "amigos" que saíram da sua vida do nada eram realmente seus amigos? Quebrou a cara tantas vezes como eu imagino?

Ah, espero tanto que você tenha conseguido comprar a casa dos sonhos da sua mãe. Como ela está, aliás? Feliz? Ela finalmente está aproveitando tudo que ela sempre mereceu? E seu pai? Ele conseguiu um bom emprego para mostrar como ele é excelente em tudo? Você vê ele sempre agora? Não me diga que o vê uma vez em anos... Você já passou muito tempo longe dele! E seus irmãos? Eles estão bem sucedidos como espero que estejam? Como eles são grandes, crescidos, adultos? Continuam os mesmos? Oh, Deus, espero que vocês não tenham brigado e ficado distantes sem saber notícias uns dos outros. Você continua orgulhosa dos irmãos que tem?

E como vai sua saúde? Você tem cuidado da sua alergia? O alzheimer já te atacou? Você continua esquecida e avoada como sempre foi? Conseguiu arranjar o trabalho dos seus sonhos ou ao menos descobriu qual é o trabalho dos seus sonhos? Não venha me dizer que está atrás de um balcão de escritório desperdiçando todo o talento que tinha. Também não me diga que ficou presa na sua cidade natal sem fazer o tur mundial como sempre desejou.

E seus amores? Continua se apaixonando pelos caras errados ou já encontrou sua alma gêmea? Você não anda tentando destruir seus próprios relacionamentos como costumava fazer, certo? Diga-me que finalmente encontrou o rapaz dos seus sonhos! Já casou? Sua festa de casamento foi a sós com seu noivo em algum lugar do planeta, como você sempre quis? Ele é um cara bacana? Ou você simplesmente virou uma senhora que cuida dos idosos no asilo da sua cidade? Espero pelo menos que esteja fazendo algum bem à humanidade.

Como está a humanidade? Continuam destruindo o mundo? Ainda existem árvores? Por favor, diga-me que sim! Não quero ver meus filhos e netos morrendo porque vocês destruíram o planeta. Você já tem filhos? Quantos e quais seus nomes? Não vejo a hora de conhecê-los, fico ansiosa só de imaginar a possibilidade. Você vai educá-los como foi educada, certo?

Não quero ouvir que seu maior sonho é voltar no tempo, ou que sua vida foi desperdiçada, ou que não vê sentido em viver. Enfim, eu só quero que você esteja muito feliz, independente de qualquer pergunta não respondida. Que você tenha feito as melhores escolhas que poderia, e que, caso você não tenha feito nada disso... FAÇA! Ainda dá tempo, acredite.

Com carinho,

Uma Thais adolescente.

sábado, 4 de julho de 2015

Se minha vida fosse um livro.



Se minha vida fosse um livro, você seria a parte em que tudo começa a ficar bom. Sabe quando de repente não se consegue mais ler só uma página? E todo final de capítulo te implora pra ler o próximo? E seus olhos começam a jorrar lágrimas porque estão lutando entre o sono ou o ápice da história? É bem aí que você está.

De umas páginas pra cá tu tem se tornado protagonista da minha trama. Ainda não está claro sua exata importância na minha biografia. Se eu pudesse virar algumas páginas eu teria a resposta de tudo. Só que aposto que nada teria sentido, de tantas pontas soltas. E também não quero pular todas as coisas boas (e as ruins) que nós iremos passar. O bom é ler letra por letra, linha por linha. Sentir tudo bem sentido.

Se minha vida fosse um livro e eu tivesse leitores, você estaria encantando todos eles. Neste momento mesmo, alguns deveriam estar implorando pra aparecer alguém como você em suas vidas. Pra eles você é o cara que só existe nos livros e isso me enche o peito, porque eu te conheço em carne viva. Mas não sou hipócrita, talvez você também seja protagonista de algumas outras histórias. Você não é o tipo de personagem que passa despercebido quando esbarra em outras narrativas.

Tenho um pouco de medo, confesso. Você pode achar com facilidade outros romances muito mais interessantes do que a nossa improvável história de... O que quer que seja. Somos duas pessoas difíceis, e eu, particularmente, sou terrível. O escritor não ligou quando me criou com milhões de defeitos, e deve ter pensado que seria fácil digitar um final feliz pra mim. Eu sei. Nem todos os finais são felizes. Torço mais pelo seu final feliz do que pelo meu próprio. Porque eu já aguentei vários outros finais catastróficos, mas não aguentaria te ver nessa posição.

Sim, o seu final porque existe sempre dois lados da moeda. E se sua vida também fosse um livro, bem, eu estaria por lá. Tentando protagonizar. Ser tão importante na sua história como você é na minha. E mesmo seu roteiro tendo muito mais conteúdo, gostaria que ambas se cruzassem por um longo tempo. Queria continuar por aí até um dia conseguir te recompensar pelas melhores páginas da minha vida, que, coincidência ou não, só começaram a acontecer depois da primeira vez que seu nome apareceu num capítulo totalmente destruído.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Te preencha.


Queria um dia conseguir te saciar. Preencher todos os buracos negros que te consomem por dentro. Você consegue imaginar? Ser preenchido invés de consumido? Ver você transbordando seria, de longe, uma das maiores felicidades da minha vida. Entristece saber que eu não sou a pessoa que te satisfaz, que acaba com teus medos, que te revira do avesso e que te desafoga desse oceano de lágrimas encarceradas no seu peito. E mesmo assim quero um dia poder ouvir da sua boca que "não há mais nesse corpo aquele monstro que um dia só crescia".

Eu espero, honestamente, que algo te preencha. Algo porque talvez não seja uma pessoa. Quem sabe uma conquista, um lugar, ou até mesmo um sentimento? Torço desesperadamente para poder ver o seu sorriso quando isso acontecer. Torço para ver isso mesmo que de longe, mesmo que eu não esteja mais tão presente na sua vida. Mesmo que você tenha se mudado pro outro lado do mundo e fale qualquer outra língua desconhecida. Eu preciso ver o seu sorriso de satisfação.

Por ora, gostaria que soubesse que, se quiser, posso ser a tua escora. Você pode abrir seu coração e me deixar entrar, e eu nem preciso ir até as partes mais profundas se isso não for conveniente, posso ficar nas beiradas até que você se sinta confortável. Sei que não sou sua família, mas queria muito poder estar ali nos seus piores dias, quando nada no mundo inteiro te fizer bem. Eu só queria estar ali. Já fico feliz quando conheço seus sentimentos, mesmo que eu não entenda como realmente é. Por ora, quero tentar ser um pedaço daquilo te preencherá um dia.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Carta para uma Thais adulta.


14 de dezembro de 2013

Querida Thais do futuro,

Como você está?

Hoje é seu aniversário! Quantos verões você já comemorou desde o dia em que eu escrevi isto pela primeira vez? Já conseguiu conquistar todas as metas da sua vida? Você ainda lembra para quantas pessoas prometeu sua amizade eterna? Você pelo menos ainda mantém um mínimo de contato com eles? Porque eles eram seus melhores amigos e você até chorou quando foi embora. Você lembra quem são eles, e lembra dos seus sobrenomes e suas personalidades? Você conheceu novas pessoas? Abandonou as outras? Você sabe o quanto no fundo eu queria que fosse pra sempre. Por falar nisso, continua desacreditando no pra sempre? Você descobriu se aqueles seus "amigos" que saíram da sua vida do nada eram realmente seus amigos? Quebrou a cara tantas vezes como eu imagino?

Ah, espero tanto que você tenha conseguido comprar a casa dos sonhos da sua mãe. Como ela está, aliás? Feliz? Ela finalmente está aproveitando tudo que ela sempre mereceu? E seu pai? Ele conseguiu um bom emprego para mostrar como ele é excelente em tudo? Você vê ele sempre agora? Não me diga que o vê uma vez em anos... Você já passou muito tempo longe dele! E seus irmãos? Eles estão bem sucedidos como espero que estejam? Como eles são grandes, crescidos, adultos? Continuam os mesmos? Oh, Deus, espero que vocês não tenham brigado e ficado distantes sem saber notícias uns dos outros. Você continua orgulhosa dos irmãos que tem?

E como vai sua saúde? Você tem cuidado da sua alergia? O alzheimer já te atacou? Você continua esquecida e avoada como sempre foi? Conseguiu arranjar o trabalho dos seus sonhos ou ao menos descobriu qual é o trabalho dos seus sonhos? Não venha me dizer que está atrás de um balcão de escritório desperdiçando todo o talento que tinha. Também não me diga que ficou presa na sua cidade natal sem fazer o tur mundial como sempre desejou.

E seus amores? Continua se apaixonando pelos caras errados ou já encontrou sua alma gêmea? Você não anda tentando destruir seus próprios relacionamentos como costumava fazer, certo? Diga-me que finalmente encontrou o rapaz dos seus sonhos! Já casou? Sua festa de casamento foi a sós com seu noivo em algum lugar do planeta, como você sempre quis? Ele é um cara bacana? Ou você simplesmente virou uma senhora que cuida dos idosos no asilo da sua cidade? Espero pelo menos que esteja fazendo algum bem à humanidade.

Como está a humanidade? Continuam destruindo o mundo? Ainda existem árvores? Por favor, diga-me que sim! Não quero ver meus filhos e netos morrendo porque vocês destruíram o planeta. Você já tem filhos? Quantos e quais seus nomes? Não vejo a hora de conhecê-los, fico ansiosa só de imaginar a possibilidade. Você vai educá-los como foi educada, certo?

Não quero ouvir que seu maior sonho é voltar no tempo, ou que sua vida foi desperdiçada, ou que não vê sentido em viver. Enfim, eu só quero que você esteja muito feliz, independente de qualquer pergunta não respondida. Que você tenha feito as melhores escolhas que poderia, e que, caso você não tenha feito nada disso... FAÇA! Ainda dá tempo, acredite.

Com carinho,

Uma Thais adolescente.

Ps: Este texto também está programado para ser publicado daqui exatos 10 anos, eu não ia escolher data, mas achei melhor já deixar programado, já que provavelmente eu vou esquecer que esse texto existe. Espero que este blog exista até lá! Se não existir, eu dou um jeito de ler esse texto novamente. Vocês ainda verão a resposta para essa carta (espero)!

sábado, 18 de maio de 2013

A morte é uma piada.


Morrer é ridículo. Você combinou de jantar com a namorada, está em pleno tratamento dentário, tem planos pra semana que vem, precisa autenticar um documento em cartório, colocar gasolina no carro e no meio da tarde morre. Como assim? E os e-mails que você ainda não abriu, o livro que ficou pela metade, o telefonema que você prometeu dar à tardinha para um cliente? Não sei de onde tiraram esta ideia: morrer. A troco? Você passou mais de dez anos da sua vida dentro de um colégio estudando fórmulas químicas que não serviriam pra nada, mas se manteve lá, fez as provas, foi em frente. Praticou muita educação física, quase perdeu o fôlego, mas não desistiu. Passou madrugadas sem dormir para estudar pro vestibular mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer da vida, cheio de dúvidas quanto à profissão escolhida, mas era hora de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em frente. De uma hora pra outra, tudo isso termina numa colisão na freeway, numa artéria entupida, num disparo feito por um delinquente que gostou do seu tênis. Qual é? Morrer é um chiste. Obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém, sem ter dançado com a garota mais linda, sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida. Você deixou em casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no varal, e penduradas também algumas contas. Os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas, a apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira. Logo você, que sempre dizia: das minhas coisas cuido eu. Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce, caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, começa a falar e talvez não conclua o que pretende dizer. Não faz exames médicos, fuma dois maços por dia, bebe de tudo, curte costelas gordas e mulheres magras e morre num sábado de manhã. Se faz check-up regulares e não tem vícios, morre do mesmo jeito. Isso é para ser levado a sério? Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o sono eterno pode ser bem-vindo. Já não há mesmo muito a fazer, o corpo não companha a mente, e a mente também já rateia, sem falar que há quase nada guardado nas gavetas. Ok, hora de descansar em paz. Mas antes de viver tudo, antes de viver até a rapa? Não se faz. Morrer cedo é uma transgressão, desfaz a ordem natural das coisas. Morrer é um exagero. E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas. Só que esta não tem graça.

Escrito por Martha Medeiros.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Raped.



     Ela tentou fugir! Gritou, mas parecia ninguém ouvir. A rua, quase tão escura quanto aquela noite, não tinha uma alma viva sequer. Desesperou-se por estar sozinha. Quando imaginaria que alguém observava seus passos brincalhões que passavam todos os dias pelas mesmas calçadas? 
     Debateu-se ao máximo com a pouca força que tinha, porém aqueles braços eram grandes demais para seu pequeno corpo. Chorou, mesmo não querendo deixar transparecer o quanto sentia-se frágil. Na sua última tentativa de fuga, quando mordeu o pulso do homem que a machucava, sentiu a palma furiosa da mão dele em seu rosto. Viu que seria impossível livrar-se dali. Então cedeu. Seu corpo parou de lutar, enquanto seus olhos ainda imploravam misericórdia. Ela também sabia que aquilo provavelmente não funcionaria, mas naquela hora qualquer tentativa parecia valer a pena.
      Estava tão ocupada pensando em como sair daqueles braços que mal percebera quando pararam em um casebre aparentemente abandonado. Estava com muito medo. Não fazia ideia de como chegara àquele lugar.
     O homem, sem nenhum cuidado, jogara-a num canto de um dos minúsculos quartos fétidos dali. Os olhos aterrorizados dela percorreram pelo cômodo com desgosto, pairando o olhar na face que mais temeria dali em diante.
     Ele aproximou-se com um lenço que amarrou forte nos pulsos e na boca da menina. Despiu-a logo depois de tirar sua calça. Ela não entendia muito sobre estupro, mas aquela parecia a hora exata para o significado da tal palavra. Fechou os olhos. Não queria lembrar daquela cena, já tinha imagens suficientes que não esqueceria tão breve. Tentou não senti-lo rasgá-la sem piedade. Tentou esquecer que estava ali.
     Violentada, nua e com falta de ar, ainda vivia. Não tivera forças para sair dali. Mal sentia-se viva. Queria ter sido esquecida, para esquecer todas as dores. 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Pra quê você vive?



Se abrir sua mente e tentar entender-me não é sua prioridade, sinta-se banido da conversa. E caso realmente queira mudar o que penso, aconselho-te voltar bem mais tarde.

Hoje não vejo motivos para existir. Se questionassem minha lealdade à vida, diria que à ela nada devo. Não se trata mais das pequenas coisas ordinárias do dia a dia. Vai além de tudo. Ou talvez seja justamente sobre todos os suspiros medíocres que damos para convercermo-nos de que há vida por aqui. Talvez seja sobre as coisas banais que no fim do dia recebem mais atenção do que são dignas de ter.

Se acha que trabalhar suado oito horas por dia é vida, já não sei mais do que estamos a falar. A vida deveria ser prazerosa. Por isso apoio aqueles que buscam por tal prazer. Não apenas nos finais de semana. Porém todos os dias. De hora à segundo. Sempre. Porque é isso que a vida é. É curta, sem máquina do tempo, nem mágica ou fada encantada. É real. Aproveitá-la da pior maneira não faz sua vida grandiosa, mesmo que inicialmente fosse este seu objetivo quando resolveu entrar naquela empresa que nada tinha a ver com o que te dava prazer, mas que te daria dinheiro - o que aparentemente te daria prazer depois de alguns anos. Anos? - Devo reforçar: ANOS? - Anos de sofrimento para um ou dois meses de prazer? Que tipo de conta é essa em que anda se metendo? Isso lá é sentido da vida?

O que mais me incomoda é quão rotineiro se tornou trabalhar. É sua obrigação ter um serviço, ser o melhor de lá, viver pela sua empresa, e esquecer todo o resto da sua vida, "porque no final a recompensa é grande". E se não existir esse final? E se o seu final for agora, sem recompensa nenhuma? Do que vai adiantar tanto esforço?

Eu não gosto de pensar assim, principalmente por estar prestes a determinar o que farei pelo resto da minha vida. Porque mesmo depois de um ano inteiro me questionando o que é melhor pra mim... não achei a resposta. E talvez eu não queira achar. Porque não quero passar a eternidade aflita por estar na profissão errada. E não, eu não quero perder tempo pensando sobre isso. Quero a profissão prazerosa logo de cara. Mas não quero passar por trinta outras profissões para descobrir com qual me identifico. Não quero perder o tempo que eu não tenho. Minha vida já é muito desprazerosa para que eu estenda isso por mais sabe-se lá quantos anos de vida.

Provavelmente começarei a ver sentido nisso que chamam de vida quando eu parar de enlouquecer por conta da louça mal lavada, ou dos assobios sem donos nas ruas desertas, ou até do canto da unha que não tem mais esmalte. Talvez se eu voltasse a ser idiota suficiente para amar alguém e fazer esse alguém o novo sentido da minha vida, eu entenderia o que é viver.

Por sorte, tenho medo de ir pro inferno caso tente me matar. Mas talvez morrer não seja tão mal assim. De qualquer forma morrerei a partir do momento que esquecer que "life sucks" e voltarei a ser um robô do século XXI que tem motivos tolos para adorar a vida.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

No tempo sem tempo.




A cada segundo que passa,
Na brisa da manhã eu viajo,
Vendo a beleza escassa,
E o Tempo nadando em riacho...

E ele não para, apenas escorre,
Brincando com personagens...
Até que nenhum mais sobre...
Rindo, fazendo sacanagens...

Mas qual! Hoje tem-se pior,
Pessoas trabalham horas...
Esquecem seus filhos, tudo ao redor,
A esperança e caridade, apenas senhoras...

E as importâncias, são quais?
Dinheiro e namoro são essenciais?
Palavras em desordem,
Palavras esquecidas, se perdem...

Tal seja o Momento.
Ainda se existe?
Com tanta gente sofrendo...
Em que o momento consiste?

E o que seria?
Momento, assim por ser...
Como você definiria?
O que vier a me dizer...

O momento te engana...
Não é quando se perde,
Ou quando se ganha.

O momento é o agora,
O momento é você,
Em casa ou la fora,
Á sua maneira de ser...

Construa o momento,
Sem demora,
Aproveite o tempo,
Pois este não tem hora...

Não tem hora para saltar,
Não tem hora para o momento,
Não tem hora para matar,
Não tem hora para lamento...


E o que aconteceu?
O tempo passou.
Só você não percebeu:
Que adulto virou...

E agora, na maldita sociedade:
Você batalha...
Perante ás dificuldades:
Você falha!

E no doce néctar da vida,
Dependendo apenas de você,
Em não ser uma alma sofrida,
Se preocupando apenas no ‘ter’,

Pois não importa o quanto o rio flua,
A vida é doce,
Que seja você,
Que seja melíflua.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Era feio. Mas cheio de graça.


     Dançava cambaleando, sem deixar uma gota sequer - da cerveja já quente - cair no chão. Pedia mil músicas que pareciam só ele conhecer. E fingia não se importar com os olhares curiosos que o observavam.
     Eu ri. Não para ele, mas dele. É claro que ele entendeu errado. Retribuiu um sorriso quase sem dentes e se aproximou.
     - Você gostou de mim? - chegou perto o suficiente pra eu sentir o cheiro de cerveja que emanava.
     - Você é legal - tentei não ser indelicada.
    Passou uma conversa sem sentido - que eu não entenderia mesmo se não houvesse a música alta que, naquela hora, me fazia viajar. Sorriu e foi embora. Encarou-me pela última vez com um olhar que implorava para que eu compreendesse quanto sua humildade superava sua "beleza", e continuou rodopiando, desejando ser mais comentado que os músicos daquele bar. Sorrindo e flertando com garotas que nunca dariam-lhe uma chance sequer. Continuou feliz. Certo de que ainda não era o fim do mundo para desistir.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Starting to live.



Meu corpo imergia na lama que queria me afundar num provável abismo de depressão. Era tentador parar de resistir e deixar que me levasse de uma vez. Assim acabaria com a dor de braços que nunca carregaram mais que dois quilos, ou o cansaço que se acumulara pela primeira vez depois de anos sem qualquer tipo de esforço físico válido. Apesar de poucos saberem... Sempre fui fraca. No entanto isso não se trata apenas de uma das milhares de competições para líder de torcida que eu participei, porque isso é real. Porque na única vez que resolvo sair em busca de uma aventura, cá estou. Fracassada. Sozinha. Sem a menor chance de ser encontrada, a menos que meus pais sintam - por algum milagre - que a filha fugitiva veio para este fim de mundo.
A verdade é que eu já estive em situações parecidíssimas, mas sem lama. Claro, eram situações banais, portanto que na época pareciam casos de vida ou morte. Não poderia me sentir mais sozinha do que estou. Provavelmente esta é a única vez que desejo pedir socorro da forma mais humilhante necessária. Mais humilhante do que ter conseguido afundar nesta lama. 
Um dia inteiro presa neste inferno. Meu vestido não poderia estar mais grudado na pele como está, e não sei se fico mais feliz pela parte que se encontra debaixo da lama, ou a que já está secando, deixando-me sem movimentos. Pra ser sincera, estes parecem meus últimos minutos de vida. A lama já alcança meus ombros, fazendo-me lembrar das milhares de aulas que seriam úteis agora e que fiz questão de ignorar.
Então era isso. Era assim que eu morreria. Sem final feliz. Sem príncipe encantado. Sozinha.
Tão só que talvez, apenas talvez, tenha entendido pela primeira vez a magia do destino. Porque pela primeira vez eu percebera que, sim, viver é meu maior desejo.
Mas agora é tarde.
Contemplo cada detalhe da natureza que desprezei por tanto tempo. Revivo os melhores momentos da minha vida, almejando por mais, mas sabendo que é o fim.
E paro de lutar.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Desista, veja as estrelas.



Sua cabeça pesava por tanto sonhar. Imersa em um mundo onde seu coração era o dono da verdade, perdia sempre a hora, o ponto em que devia descer, a matéria da aula que assistia, o segredo que lhe era contado no ouvido, a oportunidade. Seu universo idealizado era tão incrível que o mesmo supria todas suas necessidades, consolava-a a cada desgosto, enchia-a de esperança a cada lágrima que perigasse cair, fazendo com que ela não precisasse viver o que o mundo ao seu redor lhe oferecia. Pouco. Pra quem se fez em sonhos, não há realidade que realize. 
 Olhando pra dentro de si, via seus olhos como estrelas e sua boca a cuspir margaridas. Mal sabia como era por fora, não precisava.
 Cresceu e, aos poucos, foi tirada de seu mundo e jogada na rua, em meios a outros sonhos despedaçados. Não sabia como viver, mas viveu. Mesmo que no automático. Uma sessão de choro por noite, por motivos variados: não saber lidar, não saber amar, não saber reagir, disfarçar, roubar, enganar, sorrir...sonhar. Não sabia mais fazer nem o que passou anos se especializando. 
 Até que um dia, exausta do universo onde era leiga de tudo, desistiu dele. Já era a quarta vez no mês que seu chefe a chamava pra discutir seus erros. Ela não havia nascido pra aquele mundo. Subiu ao terraço do prédio em que trabalhava e caminhou lentamente até o muro. Ali, à beira do abismo, resolveu olhar pra cima. Há quanto tempo Laura não fazia aquilo? Costume de quem não tem mais o que fazer. O céu é mesmo pra poucos. É pros que respiram. Pros que param, pausam, desistem de vez em quando. O céu é pros que desistem. Ela era uma desistente. Quando sonhava e viajava entre as estrelas (as mesmas que estavam acesas no céu aquela noite), há muitos anos atrás, não sabia, mas estava fugindo e desistindo do que chamamos de "real". Tanto faz. Ela só queria aquela sensação de novo. Afinal, o que a fazia feliz era não viver. 

Adeus, realidade. [...] Boa noite, estrelas! Voltei. Serei sua pra sempre. 

E um clarão (provavelmente efeito da aproximação de tantos corpos celestes) invadiu sua alma, seu coração. Sua felicidade só era real no mundo em que imaginava.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Afinal, de qual fim se fala?


Você viu os noticiários? Aquele furacão lá nos EUA – e eu achava aquele lugar tão protegido –, a onda de assassinatos em São Paulo, a seca no sul do país, guerra, guerra e mais guerra junto com um clima louco. Vê como o mundo está de cabeça para baixo? Dizem que vai acabar mesmo, e isso é apenas o início.


E eu e você? Vamos acabar mesmo? É apenas o início da tormenta também? Teremos eventos suscetivos onde eu choro até secar enquanto você coloca uma aliança na mão de qualquer outra? É assim, não é? Tudo bem que a gente nem começou de verdade, que você vive dizendo que nada é o que parece e eu logo levo para o pessoal. Tudo bem que a gente se desencontra em todo encontro. Mas, olha, o mundo vai acabar, e agora?



Ainda estou tentando me livrar de alguns pesadelos. Terapia não dá certo, quando eu durmo o mundo é outro e nem sempre mais prazeroso. Você lembra aquela noite em que acordei achando que havia levado um tiro? Você sorriu com calma, disse que eu estava mais viva impossível, beliscou o meu braço e fez do pesadelo uma piada, mas uma piada boa. Você me ajudava e eu pensava: tem chance, meu Deus, desse homem não me amar?



O mundo acabando e você ainda nem deve ter dito tudo o que tem para dizer. Eu também não disse. Não gostei quando me convidou para o casamento de um amigo e ficou duas intermináveis horas colocando o assunto em dia com a sua paixão do colegial. Detestei quando contei que meu sonho de lua de mel era em Nova Iorque e você disse "vai precisar de um marido rico". O marido é você, imbecil! Pensei, mas não falei. Detestei também quando adiou por um mês o meu encontro com a sua família porque, na bem da verdade, não sabia que termos de relacionamento entre nós usaria ao me apresentar. "É a minha futura mulher." "É a minha namorada." "É uma amiga." "É uma..." Mais uma. Detestei muito e falei pouco, engoli sapos, trancafiei desgostos. Vai que você me achasse mais dramática do que já acha?



Voltando ao assunto principal, lá se vai o mundo, dizem que temos pouco tempo, quase nenhum. E a nossa casa na praia? Nossas viagens pelo mundo? Nosso filho que vai torcer para o seu time? Nossos medos dormindo todos os dias lado a lado? E nós? Tudo o que sonhei sozinha, o que acontece?



Está certo, você não tem medo. Fala sempre que o mundo não vai acabar fácil assim porque ainda vai nos triturar bastante. Acredito em você, é apenas questão de honra manter minha veia exagerada e dramática.



Ah... Sei lá, não consigo parar de pensar. Nova Iorque é tão longe, não é? Mesmo assim parece que o furacão – e tudo mais – acontece sempre em nós dois.


O fim do mundo é logo ali. O nosso parece que já até foi.


Camila Costa

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Meu quase suicídio.



Ele gritava comigo, inundado de remorso, sem piedade nenhuma. E desta vez não era por causa de outro homem. Era porque na noite anterior eu tentara me suicidar. Foi uma tentativa ridiculamente falha, como podem ver. Talvez tivesse sido melhor arrumar um método mais rápido, sem dor, e que não tivesse chances de uma súbita tentativa de ressussitamento. A culpa não era dele. Ou pelo menos era nisso que eu gostaria de acreditar.
Reparei que o soro ainda corria pelas minhas veias, recuperando um corpo quase perdido. Tive vontade de chorar quando ele disse que se afastaria de mim caso eu cometesse outra tentativa de suicídio. Logo que viu uma lágrima caindo dos meus olhos, começou a gritar ainda mais, dizendo que não era para eu me fazer de coitada, afinal, eu tentara me matar para apenas chamar sua atenção. O que não era verdade.
Alguns minutos depois chegaram médicos avisados por alguém sobre o barulho que meu marido fazia num local inapropriado. Então, finalmente se acalmou. Mas antes de me deixar falar qualquer coisa, acrescentou mais calmo:
"Eu li a sua carta de despedida. Desculpe-me se fui tão ausente na sua vida, e se meu trabalho atrapalhou nosso relacionamento. Eu queria te surpreender todos os dias com uma flor qualquer, chegar mais cedo em casa, e te fazer cafuné antes de dormir. Sei que perdi muitas noites contigo para relaxar com meus amigos. Sei que deveria ter te dado o filho que tanto queria. Mas eu precisava de tempo. Fui egoísta, sim. No entanto, querida, mais do que nunca, não tenho dúvidas do meu amor por você. No fundo sempre soube que você é a mulher da minha vida. Você acha mesmo que todos os motivos que você listou eram suficientes pra acabar com o amor que sentimos um pelo outro? Porque, meu amor, pra mim não são. Se estou contigo, é porque te amo. E te amo pelo que você é. Não adianta querer mudar. Você é linda da sua maneira. E te ver estatelada naquele chão gelado foi como se tivessem arrancado minhas pernas sem dó. Se você morresse, querida, como eu poderia viver? Você pelo menos pensou nisso?"
E então ele chorou... Nós choramos. E eu ainda tinha tantas perguntas para lhe fazer; entretanto, ele me deu novamente um motivo para viver. Era a mesma promessa de sempre, mas eu acreditei.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Sobre coisas que me emocionam


  Hoje a vida acordou pra me fazer pensar no que me emociona. De maneira boa ou ruim.
  Redes sociais me emocionam de maneira ruim. É o que mais me envergonho por sentir: desequilíbrio emocional em redes sociais. Isso acontece porque é onde as pessoas falam o que ninguém faz questão de ouvir (ou finge que não faz) e, exatamente por isso, vem lá de dentro delas. Mesmo que finjam ser algo que não são, isso ainda assim diz algo sobre o que elas realmente são. Essa sensação de saber mais do que devo das pessoas me faz mal, ainda que eu também me exponha em demasia nessas redes. Em suma, fico triste ao ligar o computador, mas não consigo evitá-lo. 
 Também fico à beira-mar quando ouço comentários muito sinceros (não gosto de pessoas sinceras, não gosto de pessoas abertas em excesso, não gosto da verdade nua e crua, tenho minhas tendências kitsch) e quando faz frio. 
 Mas há muito mais coisas que me fazem bem! Há os filmes, as risadas exageradas, os livros, as melodias, a comida e as paisagens bonitas. Mas há uma sensação que é, no fim, o objetivo da minha existência, e me toca, me eleva, me ensurdece e me isola do resto do mundo (e ao mesmo tempo faz com que eu me sinta uma parte essencial dele), que é sentir minha alma livre. Sentir o fluído do êxtase correndo por meu corpo, e, ao mesmo tempo, me sentir fora de meu corpo. E pra que isso aconteça, há formulas simples e muito belas: gosto de me sentar no chão, em qualquer lugar que seja, ouvir uma melodia que me embale por inteiro, mexer os braços de maneira descoordenada, esticar e relaxar os dedos dos pés, balançar a cabeça no ritmo da música, brincar com meus cabelos, abrir os olhos e observar o que há de bonito e admirável ao meu redor e depois fechá-los e procurar o bonito dentro de mim mesma. Não há nada, nada que me emocione mais que isso. Às vezes se torna ainda melhor: quando compro purpurina e jogo, enquanto balanço os braços, ela aos céus e vejo (juro que vejo!) fadinhas reluzindo à medida que o sol bate nos grãos de glitter. É também mais bonito quando há passarinhos cantando ou vento assobiando em harmonia com a música que ouço. Ou quando abro os olhos e o que vejo são folhas, borboletas, flores e luzes coloridas. 
 E é assim que me faço feliz quando necessário. 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Quem me estuprou.


Hoje fui estuprada. Subiram em cima de mim, invadiram meu corpo e eu não pude fazer nada. Você não vai querer saber dos detalhes. Eu não quero lembrar dos detalhes. Ele parecia estar gostando e foi até o fim. Não precisou apontar uma arma para a minha cabeça. Eu já estava apavorada. Não precisou me esfolar ou esmurrar. A violência me atingiu por dentro.

A calcinha, em frangalhos no chão, só não ficou mais arrasada do que eu. Depois que ele terminou e foi embora, fiquei alguns minutos com a cara no chão, tentando me lembrar do rosto do agressor. Eu não sei o seu nome, não sei o que faz da vida. Mas eu sei quem me estuprou.

Quem me estuprou foi a pessoa que disse que quando uma mulher diz “não”, na verdade, está querendo dizer “sim”. Não porque esse sujeito, só por dizer isso, seja um estuprador em potencial. Não. Mas porque é esse tipo de pessoa que valida e reforça a ação do cara que abusou do meu corpo.

Então, quem me estuprou também foi o cara que assoviou para mim na rua. Aquele, que mesmo não me conhecendo, achava que tinha o direito de invadir o meu espaço. Quem me estuprou foi quem achou que, se eu estava sozinha na rua, na balada ou em qualquer outro lugar do planeta, é porque eu estava à disposição.

Quem me estuprou foram aqueles que passaram a acreditar que toda mulher, no fundo no fundo, alimenta a fantasia de ser estuprada. Foram aqueles que aprenderam com os filmes pornô que o sexo dá mais tesão quando é degradante pra mulher. Quando ela está claramente sofrendo e sendo humilhada. Quando é feito à força.

Quem me estuprou foi o cara que disse que alguns estupradores merecem um abraço. Foi o comediante que fez graça com mulheres sendo assediadas no transporte público. Foi todo mundo que riu dessa piada. Foi todo mundo que defendeu o direito de fazer piadas sobre esse momento de puro horror.

Quem me estuprou foram as propagandas que disseram que é ok uma mulher ser agarrada e ter a roupa arrancada sem o consentimento dela. Quem me estuprou foram as propagandas que repetidas vezes insinuaram que mulher é mercadoria. Que pode ser consumida e abusada. Que existe somente para satisfazer o apetite sexual do público-alvo.

Quem me estuprou foi o padre que disse que, se isso aconteceu, foi porque eu consenti. Foi também o padre que disse que um estuprador até pode ser perdoado, mas uma mulher que aborta não. Quem me estuprou foi a igreja, que durante séculos se empenhou a me reduzir, a me submeter, a me calar.

Quem me estuprou foram aquelas pessoas que, mesmo depois do ocorrido, insistem que a culpada sou eu. Que eu pedi para isso acontecer. Que eu estava querendo. Que minha roupa era curta demais. Que eu bebi demais. Que eu sou uma vadia.

Ainda sou capaz de sentir o cheiro nauseante do meu agressor. Está por toda parte. E então eu percebo que, mesmo se esse cara não existisse, mesmo se ele nunca tivesse cruzado o meu caminho, eu não estaria a salvo de ter sido destroçada e de ter tido a vagina arrebentada. Porque não foi só aquele cara que me estuprou. Foi uma cultura inteira.

Esse texto é fictício. Eu não fui estuprada hoje. Mas certamente outras mulheres foram.


Quer saber quem escreveu esse texto?

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Sobre sorrisos e cara amarrada.



Cheguei onde eu queria.
Mas não foi dando sorrisos. Foi com a cara fechada, cara feia e andando torto.
Não fui simpático.
E consegui a imagem que eu queria: de alguém impenetrável, inatingível, inderrubável.
Só imagem.
E talvez tenha sido um erro ter ficado assim.
Agora as pessoas não chegam perto.
Claro, é a imagem, é a cara feia, é a aparência arrogante, é o olhar superior.
Que não representam o que penso e sou.
Talvez seja a hora de abrandar um pouco, abrir um sorriso.
Talvez a cara feia tenha me trazido as conquistas, mas a falta do sorriso me tirou coisas muito importantes.

Texto escrito por Bruno Prado.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A cidade cinza.



Eu tinha tempo de sobra. Sempre tive tempo de sobra. Principalmente nesses tempos onde meia hora de atraso é normal. Pra ser exata eu estava duas horas e trinta e dois minutos adiantada. O que era tempo suficiente pra conhecer um pequeno pedaço da "cidade cinza". 
Resolvi ir pelo metrô. Peguei a linha 1, que desviaria levemente do caminho original, mas essa era a intenção: atrasar um pouco o que estava adiantado demais.
O engraçado é que nessas cidades grandes você é só mais um qualquer, as pessoas nem te olham no olho, e não fazem questão de ficar observando que tipo de roupa você está vestindo.
Eu, como qualquer outra pessoa do interior, fiquei fascinada com todos os detalhes, e se alguém parasse para me reparar não teria dúvidas que eu não passara nem um dia naquela cidade grande. Mas na realidade, mesmo que eu já estivesse por cinco ou dez meses, eu continuaria com essa cara de curiosidade por qualquer coisa boba que eu visse.
Não foi muito fácil minha primeira experiência com o metrô. A começar pelo fato de que fui arrastada para um vagão qualquer junto com a multidão que praticamente corria enfurecidamente. Pra ser sincera nem tinha reparado nas placas de "Deixe a esquerda livre para circulação" nas escadas rolantes, até que alguém me puxou para a direita me deixando o recado. E fiquei feliz em saber que as pessoas respeitavam isso - ou pelo menos a maioria.
Dentro do vagão - é vagão mesmo que se fala? - fiquei de pé. E a culpa era toda minha por sair em horário de "pico". As pessoas entravam e saiam cheias de pressa. Algumas dormiam, e eu me perguntava como elas sabiam quando tinham que acordar para não perderem o ponto. Todos pareciam um pouco estressados ou cansados. 
Um adolescente de aparentemente 17 anos chorava todo encolhido tentando não chamar atenção. Um velho rabugento reclamava para a sua mulher de alguma coisa sobre a refeição da noite anterior. A menina que lia um livro, cujo título não me recordo, derrubou uma lágrima que caiu meio tímida em seu colo. A mulher com flores nas mãos sorriu depois de ler um cartão que estava encaixado no buquê. O homem sentado deu seu lugar à uma velhinha, que lhe agradeceu depois de um sorriso. E a criança que chorava ganhou um doce de uma outra que observava preocupada a chorosa.
Afinal, eram todas pessoas que tinham suas próprias vidas, seus problemas e seus amores. Talvez estivessem mesmo cansadas e estressadas, mas elas me contavam suas belíssimas histórias naquele curto espaço de tempo em que esperavam seu ponto chegar.
Quando saí do metrô, aquela cidade já não era mais tão cinza assim. Eu já conseguia ver um pouco da felicidade que eu estava acostumada a ver no interior. E já quase me sentia parte de lá.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Um cheiro.



Cheiro é uma coisa incrível, né? Você é capaz de salivar, vomitar, lembrar, se emocionar, viajar, fechar os olhos e apenas, sentir. Às vezes, gostaria de ter o faro de Fulana, meu Beagle. Mas pensando bem, melhor não.
Consigo lembrar de todos os meus antigos trabalhos, só de sentir o perfume que eu usava na época. Lembro de pessoas com nitidez pelo perfume que usam, ou já usaram.
O perfume Giovanna Baby, por exemplo, me faz lembrar uma paixão da minha pré-adolescência onde quer que eu esteja, seja com quem for. E acho que vai ser assim até eu morrer.
Toda casa tem um cheiro. Pode entrar na casa de qualquer pessoa, que aquela casa vai ter o seu específico cheiro. Se o inquilino mudar, o cheiro também muda. Consigo lembrar do cheiro da casa dos meus pais, da minha casa e a casa de alguns amigos.
Minha mãe odiava que cheirassem sua comida. Ela achava uma deselegância, como se a pessoa quisesse sentir se a comida estava estragada. Muito pelo contrário, eu acho que era para dar mais sabor à comida. Já viu gripado sentir o paladar?
E cheiro de carro novo? Como nunca inventaram um perfume? Um odorizador de ambiente. Tenho certeza que muitos homens usariam no quarto.
Adoro cheirar as coisas. De folha de papel Sulfite a cabelo lavado de mulher. Mas nenhum se compara ao cheiro de chuva.
Também sinto saudades de alguns cheiros: o de dendê na saída do aeroporto de Salvador, do mar, de verde, de estrume de cavalo, de minha mãe.
As pessoas também têm seu cheiro próprio. E o cheiro daquela pessoa? Que você sente a cada fungada no cangote? Você pode até comprar o mesmo perfume, mas aquele cheiro é único. Exclusivo da pessoa.
Confesso que já borrifei, escondido, meu perfume na fronha do travesseiro de uma namorada. Ela só percebia quando deitava na hora de dormir. Mas isso foi há muito tempo, quando eu ainda era romântico.
Deve ser por isso que minha despedida preferida, típica do Nordeste, é: “Um cheiro pra você!”

Matheus Tapioca

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Diga-me.


"O que tinha a vida a prometer-me para eu defendê-la com bravura?"

O calor das coisas - Nélida Piñon.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Você chorará por mim?


Se não conheceres minha história, minha morte será indiferente. Não passará de mais uma vida no meio de outras 7 bilhões de pessoas - somadas a muitas outras que já são descartadas porque arredondam o número total de habitantes; além, claro, dos rejeitados que não são nem registrados como "cidadãos".
Sou como uma única célula que sozinha não faz diferença num organismo, mas que tem milhares de propriedades quando vista de um microscópio. 
Se não souber da minha vida, não farei diferença na tua, pois tu não sabe quem amei e por quem me sacrifiquei. Não sabe se tenho filhos ou se divaguei como uma alma penada por aí.
Se eu morrer sem lhe contar quem eu sou, tu saberá apenas que eu era mais um ser vivo que faleceu com outras 50 mil pessoas - ou mais - que morrem diariamente. Sei que ficará chocado a princípio, no entanto, logo a notícia virará história, e a história, uma lenda que nem todos acreditam ter acontecido.
É por isso que só faz sentido chorar por alguém quando conhece-lhe a vida. É por isso também que você chora pelo protagonista do drama, não pelo figurante. Se não quer enxergar meu interior nem atingir o fundo do meu coração, não precisa chorar nem tentar entender porque as outras pessoas derrubam lágrimas por mim. Mas se quiser, ainda posso lhe contar todos os meus segredos.

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