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sábado, 18 de maio de 2013

A morte é uma piada.


Morrer é ridículo. Você combinou de jantar com a namorada, está em pleno tratamento dentário, tem planos pra semana que vem, precisa autenticar um documento em cartório, colocar gasolina no carro e no meio da tarde morre. Como assim? E os e-mails que você ainda não abriu, o livro que ficou pela metade, o telefonema que você prometeu dar à tardinha para um cliente? Não sei de onde tiraram esta ideia: morrer. A troco? Você passou mais de dez anos da sua vida dentro de um colégio estudando fórmulas químicas que não serviriam pra nada, mas se manteve lá, fez as provas, foi em frente. Praticou muita educação física, quase perdeu o fôlego, mas não desistiu. Passou madrugadas sem dormir para estudar pro vestibular mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer da vida, cheio de dúvidas quanto à profissão escolhida, mas era hora de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em frente. De uma hora pra outra, tudo isso termina numa colisão na freeway, numa artéria entupida, num disparo feito por um delinquente que gostou do seu tênis. Qual é? Morrer é um chiste. Obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém, sem ter dançado com a garota mais linda, sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida. Você deixou em casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no varal, e penduradas também algumas contas. Os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas, a apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira. Logo você, que sempre dizia: das minhas coisas cuido eu. Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce, caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, começa a falar e talvez não conclua o que pretende dizer. Não faz exames médicos, fuma dois maços por dia, bebe de tudo, curte costelas gordas e mulheres magras e morre num sábado de manhã. Se faz check-up regulares e não tem vícios, morre do mesmo jeito. Isso é para ser levado a sério? Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o sono eterno pode ser bem-vindo. Já não há mesmo muito a fazer, o corpo não companha a mente, e a mente também já rateia, sem falar que há quase nada guardado nas gavetas. Ok, hora de descansar em paz. Mas antes de viver tudo, antes de viver até a rapa? Não se faz. Morrer cedo é uma transgressão, desfaz a ordem natural das coisas. Morrer é um exagero. E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas. Só que esta não tem graça.

Escrito por Martha Medeiros.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Como é estar do outro lado.


Uma campanha que você nunca viu antes!
Doe.

FICHA TÉCNICA

Cliente: Santa Casa de Misericórdia de São Paulo
Peça: Ação
Produto: Doação de Órgãos
Título da Ação: Ticket de Espera
Título da Ação (inglês): The Waiting Ticket
VP de Criação: Rui Branquinho
Direção de Criação: Flavio Casarotti, Rui Branquinho
Direção de arte: Leon Valente
Redator: Marina Erthal
Art-Buyer: Monica Beretta
Produção Gráfica: Elaine Carvalho, Rodrigo Cassino, Robinson Silva
Atendimento: Valéria Ordonhez, Ticiana Cardoso
Planejamento: Fernanda Flandoli, Eliana Yamaguchi, Adriano Eliezer
Mídia: Gustavo Gaion, Marcello Bolla
Aprovação cliente: Antonio Carlos Forte, Adriana Diniz
Data de veiculação: 03/12

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Pra quê você vive?



Se abrir sua mente e tentar entender-me não é sua prioridade, sinta-se banido da conversa. E caso realmente queira mudar o que penso, aconselho-te voltar bem mais tarde.

Hoje não vejo motivos para existir. Se questionassem minha lealdade à vida, diria que à ela nada devo. Não se trata mais das pequenas coisas ordinárias do dia a dia. Vai além de tudo. Ou talvez seja justamente sobre todos os suspiros medíocres que damos para convercermo-nos de que há vida por aqui. Talvez seja sobre as coisas banais que no fim do dia recebem mais atenção do que são dignas de ter.

Se acha que trabalhar suado oito horas por dia é vida, já não sei mais do que estamos a falar. A vida deveria ser prazerosa. Por isso apoio aqueles que buscam por tal prazer. Não apenas nos finais de semana. Porém todos os dias. De hora à segundo. Sempre. Porque é isso que a vida é. É curta, sem máquina do tempo, nem mágica ou fada encantada. É real. Aproveitá-la da pior maneira não faz sua vida grandiosa, mesmo que inicialmente fosse este seu objetivo quando resolveu entrar naquela empresa que nada tinha a ver com o que te dava prazer, mas que te daria dinheiro - o que aparentemente te daria prazer depois de alguns anos. Anos? - Devo reforçar: ANOS? - Anos de sofrimento para um ou dois meses de prazer? Que tipo de conta é essa em que anda se metendo? Isso lá é sentido da vida?

O que mais me incomoda é quão rotineiro se tornou trabalhar. É sua obrigação ter um serviço, ser o melhor de lá, viver pela sua empresa, e esquecer todo o resto da sua vida, "porque no final a recompensa é grande". E se não existir esse final? E se o seu final for agora, sem recompensa nenhuma? Do que vai adiantar tanto esforço?

Eu não gosto de pensar assim, principalmente por estar prestes a determinar o que farei pelo resto da minha vida. Porque mesmo depois de um ano inteiro me questionando o que é melhor pra mim... não achei a resposta. E talvez eu não queira achar. Porque não quero passar a eternidade aflita por estar na profissão errada. E não, eu não quero perder tempo pensando sobre isso. Quero a profissão prazerosa logo de cara. Mas não quero passar por trinta outras profissões para descobrir com qual me identifico. Não quero perder o tempo que eu não tenho. Minha vida já é muito desprazerosa para que eu estenda isso por mais sabe-se lá quantos anos de vida.

Provavelmente começarei a ver sentido nisso que chamam de vida quando eu parar de enlouquecer por conta da louça mal lavada, ou dos assobios sem donos nas ruas desertas, ou até do canto da unha que não tem mais esmalte. Talvez se eu voltasse a ser idiota suficiente para amar alguém e fazer esse alguém o novo sentido da minha vida, eu entenderia o que é viver.

Por sorte, tenho medo de ir pro inferno caso tente me matar. Mas talvez morrer não seja tão mal assim. De qualquer forma morrerei a partir do momento que esquecer que "life sucks" e voltarei a ser um robô do século XXI que tem motivos tolos para adorar a vida.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

No tempo sem tempo.




A cada segundo que passa,
Na brisa da manhã eu viajo,
Vendo a beleza escassa,
E o Tempo nadando em riacho...

E ele não para, apenas escorre,
Brincando com personagens...
Até que nenhum mais sobre...
Rindo, fazendo sacanagens...

Mas qual! Hoje tem-se pior,
Pessoas trabalham horas...
Esquecem seus filhos, tudo ao redor,
A esperança e caridade, apenas senhoras...

E as importâncias, são quais?
Dinheiro e namoro são essenciais?
Palavras em desordem,
Palavras esquecidas, se perdem...

Tal seja o Momento.
Ainda se existe?
Com tanta gente sofrendo...
Em que o momento consiste?

E o que seria?
Momento, assim por ser...
Como você definiria?
O que vier a me dizer...

O momento te engana...
Não é quando se perde,
Ou quando se ganha.

O momento é o agora,
O momento é você,
Em casa ou la fora,
Á sua maneira de ser...

Construa o momento,
Sem demora,
Aproveite o tempo,
Pois este não tem hora...

Não tem hora para saltar,
Não tem hora para o momento,
Não tem hora para matar,
Não tem hora para lamento...


E o que aconteceu?
O tempo passou.
Só você não percebeu:
Que adulto virou...

E agora, na maldita sociedade:
Você batalha...
Perante ás dificuldades:
Você falha!

E no doce néctar da vida,
Dependendo apenas de você,
Em não ser uma alma sofrida,
Se preocupando apenas no ‘ter’,

Pois não importa o quanto o rio flua,
A vida é doce,
Que seja você,
Que seja melíflua.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Os feios são belos.



A menina de coxas desproporcionais
e espinhas recém-curadas não sabe,
mas está sendo observada.

Seus olhos presos ao chão,
procurando sabe-se lá o quê,
os cabelos deliciosamente desgrenhados,
ela nem imagina, nem quer saber,
que está sendo observada,
porque se acha feia demais
pra que isso aconteça.

Os feios são belos
pois deixam suas afetações
em casa.
Sabe aquela vontade de ser visto,
notado, amado, invejado?
Pois bem, os feios deixam essas coisas
em casa.

Então eles, os feios,
enfiam suas caras injustamente desprezadas
entre cabelos mal cuidados,
travesseiros mal amados
e noites mal dormidas,
pois o peso da sociedade dita bela
e o bafo da pose dos ditos lindos,
invadem o quarto dos feios com tanta força
que fica muito difícil dormir
com a barulheira
desses ditos
belos.

Os belos são barulhentos,
pavões gritantes de umbigos enormes,
“Vejam-me!”,
“Admirem-me!”,
“Olhem-me fazendo pose no Instagram!”;
as penas no chão acusam:
aqui esteve o belo.

Louvemos a beleza dos feios, dos imperfeitos,
aqueles que se levantam da cama e, sem artificialismos,
metem a cara na rua e pregam os olhos no chão.

Olhemos os feios.

E a menina de gestos oprimidos
do começo do poema,
aquela toda envergonhada,
meio que se punindo por ser quem é,
lembra dela?

Foi-se embora sem saber
que estava sendo admirada.


(Michel Consolação)

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Desista, veja as estrelas.



Sua cabeça pesava por tanto sonhar. Imersa em um mundo onde seu coração era o dono da verdade, perdia sempre a hora, o ponto em que devia descer, a matéria da aula que assistia, o segredo que lhe era contado no ouvido, a oportunidade. Seu universo idealizado era tão incrível que o mesmo supria todas suas necessidades, consolava-a a cada desgosto, enchia-a de esperança a cada lágrima que perigasse cair, fazendo com que ela não precisasse viver o que o mundo ao seu redor lhe oferecia. Pouco. Pra quem se fez em sonhos, não há realidade que realize. 
 Olhando pra dentro de si, via seus olhos como estrelas e sua boca a cuspir margaridas. Mal sabia como era por fora, não precisava.
 Cresceu e, aos poucos, foi tirada de seu mundo e jogada na rua, em meios a outros sonhos despedaçados. Não sabia como viver, mas viveu. Mesmo que no automático. Uma sessão de choro por noite, por motivos variados: não saber lidar, não saber amar, não saber reagir, disfarçar, roubar, enganar, sorrir...sonhar. Não sabia mais fazer nem o que passou anos se especializando. 
 Até que um dia, exausta do universo onde era leiga de tudo, desistiu dele. Já era a quarta vez no mês que seu chefe a chamava pra discutir seus erros. Ela não havia nascido pra aquele mundo. Subiu ao terraço do prédio em que trabalhava e caminhou lentamente até o muro. Ali, à beira do abismo, resolveu olhar pra cima. Há quanto tempo Laura não fazia aquilo? Costume de quem não tem mais o que fazer. O céu é mesmo pra poucos. É pros que respiram. Pros que param, pausam, desistem de vez em quando. O céu é pros que desistem. Ela era uma desistente. Quando sonhava e viajava entre as estrelas (as mesmas que estavam acesas no céu aquela noite), há muitos anos atrás, não sabia, mas estava fugindo e desistindo do que chamamos de "real". Tanto faz. Ela só queria aquela sensação de novo. Afinal, o que a fazia feliz era não viver. 

Adeus, realidade. [...] Boa noite, estrelas! Voltei. Serei sua pra sempre. 

E um clarão (provavelmente efeito da aproximação de tantos corpos celestes) invadiu sua alma, seu coração. Sua felicidade só era real no mundo em que imaginava.

sábado, 29 de setembro de 2012

Filme: Os famosos e os Duendes da Morte.


"Naquela cidade, cada um sonhava em segredo. O menino sem nome conheceu a garota sem pernas. Ela não tinha pernas, mas mesmo sem pernas ela não precisava de ninguém para ir embora. E eles tentaram. A garota sem pernas mostrou a ele o mundo que ela conhecia. Ele, que não tinha nome, embarcou como quem nunca mais quer voltar. Por um tempo, olharam pra mesma direção.

Ela nunca lhe deu um nome, ele nunca lhe trouxe as pernas. O que pra um era sina, para outro era mistério. Eles poderiam andar juntos pelo mesmo trilho, mas nunca seriam esmagados pelo mesmo trem."


Não tenha dúvidas, esse é o filme mais poético que você vai ver na sua vida - em todos os sentidos: texto, fotografia, cenário, e trilha sonora. É brasileiro (cinema brasileiro me orgulhando cada vez mais). Pra mim, o único ponto ruim foi ele ser parado demais. Mas em compensação é um filme extremamente inspirador, que transforma cotidiano em poesia.

Uma das - várias - cenas que eu mais gostei.

Confesso que não faço ideia do por quê do título, mas foi ele que me deixou curiosa. E principalmente o trailer, que mostrou um pouquinho do grande potencial do filme.


"Estar perto não é físico."

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Quem me estuprou.


Hoje fui estuprada. Subiram em cima de mim, invadiram meu corpo e eu não pude fazer nada. Você não vai querer saber dos detalhes. Eu não quero lembrar dos detalhes. Ele parecia estar gostando e foi até o fim. Não precisou apontar uma arma para a minha cabeça. Eu já estava apavorada. Não precisou me esfolar ou esmurrar. A violência me atingiu por dentro.

A calcinha, em frangalhos no chão, só não ficou mais arrasada do que eu. Depois que ele terminou e foi embora, fiquei alguns minutos com a cara no chão, tentando me lembrar do rosto do agressor. Eu não sei o seu nome, não sei o que faz da vida. Mas eu sei quem me estuprou.

Quem me estuprou foi a pessoa que disse que quando uma mulher diz “não”, na verdade, está querendo dizer “sim”. Não porque esse sujeito, só por dizer isso, seja um estuprador em potencial. Não. Mas porque é esse tipo de pessoa que valida e reforça a ação do cara que abusou do meu corpo.

Então, quem me estuprou também foi o cara que assoviou para mim na rua. Aquele, que mesmo não me conhecendo, achava que tinha o direito de invadir o meu espaço. Quem me estuprou foi quem achou que, se eu estava sozinha na rua, na balada ou em qualquer outro lugar do planeta, é porque eu estava à disposição.

Quem me estuprou foram aqueles que passaram a acreditar que toda mulher, no fundo no fundo, alimenta a fantasia de ser estuprada. Foram aqueles que aprenderam com os filmes pornô que o sexo dá mais tesão quando é degradante pra mulher. Quando ela está claramente sofrendo e sendo humilhada. Quando é feito à força.

Quem me estuprou foi o cara que disse que alguns estupradores merecem um abraço. Foi o comediante que fez graça com mulheres sendo assediadas no transporte público. Foi todo mundo que riu dessa piada. Foi todo mundo que defendeu o direito de fazer piadas sobre esse momento de puro horror.

Quem me estuprou foram as propagandas que disseram que é ok uma mulher ser agarrada e ter a roupa arrancada sem o consentimento dela. Quem me estuprou foram as propagandas que repetidas vezes insinuaram que mulher é mercadoria. Que pode ser consumida e abusada. Que existe somente para satisfazer o apetite sexual do público-alvo.

Quem me estuprou foi o padre que disse que, se isso aconteceu, foi porque eu consenti. Foi também o padre que disse que um estuprador até pode ser perdoado, mas uma mulher que aborta não. Quem me estuprou foi a igreja, que durante séculos se empenhou a me reduzir, a me submeter, a me calar.

Quem me estuprou foram aquelas pessoas que, mesmo depois do ocorrido, insistem que a culpada sou eu. Que eu pedi para isso acontecer. Que eu estava querendo. Que minha roupa era curta demais. Que eu bebi demais. Que eu sou uma vadia.

Ainda sou capaz de sentir o cheiro nauseante do meu agressor. Está por toda parte. E então eu percebo que, mesmo se esse cara não existisse, mesmo se ele nunca tivesse cruzado o meu caminho, eu não estaria a salvo de ter sido destroçada e de ter tido a vagina arrebentada. Porque não foi só aquele cara que me estuprou. Foi uma cultura inteira.

Esse texto é fictício. Eu não fui estuprada hoje. Mas certamente outras mulheres foram.


Quer saber quem escreveu esse texto?

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Sobre sorrisos e cara amarrada.



Cheguei onde eu queria.
Mas não foi dando sorrisos. Foi com a cara fechada, cara feia e andando torto.
Não fui simpático.
E consegui a imagem que eu queria: de alguém impenetrável, inatingível, inderrubável.
Só imagem.
E talvez tenha sido um erro ter ficado assim.
Agora as pessoas não chegam perto.
Claro, é a imagem, é a cara feia, é a aparência arrogante, é o olhar superior.
Que não representam o que penso e sou.
Talvez seja a hora de abrandar um pouco, abrir um sorriso.
Talvez a cara feia tenha me trazido as conquistas, mas a falta do sorriso me tirou coisas muito importantes.

Texto escrito por Bruno Prado.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A cidade cinza.



Eu tinha tempo de sobra. Sempre tive tempo de sobra. Principalmente nesses tempos onde meia hora de atraso é normal. Pra ser exata eu estava duas horas e trinta e dois minutos adiantada. O que era tempo suficiente pra conhecer um pequeno pedaço da "cidade cinza". 
Resolvi ir pelo metrô. Peguei a linha 1, que desviaria levemente do caminho original, mas essa era a intenção: atrasar um pouco o que estava adiantado demais.
O engraçado é que nessas cidades grandes você é só mais um qualquer, as pessoas nem te olham no olho, e não fazem questão de ficar observando que tipo de roupa você está vestindo.
Eu, como qualquer outra pessoa do interior, fiquei fascinada com todos os detalhes, e se alguém parasse para me reparar não teria dúvidas que eu não passara nem um dia naquela cidade grande. Mas na realidade, mesmo que eu já estivesse por cinco ou dez meses, eu continuaria com essa cara de curiosidade por qualquer coisa boba que eu visse.
Não foi muito fácil minha primeira experiência com o metrô. A começar pelo fato de que fui arrastada para um vagão qualquer junto com a multidão que praticamente corria enfurecidamente. Pra ser sincera nem tinha reparado nas placas de "Deixe a esquerda livre para circulação" nas escadas rolantes, até que alguém me puxou para a direita me deixando o recado. E fiquei feliz em saber que as pessoas respeitavam isso - ou pelo menos a maioria.
Dentro do vagão - é vagão mesmo que se fala? - fiquei de pé. E a culpa era toda minha por sair em horário de "pico". As pessoas entravam e saiam cheias de pressa. Algumas dormiam, e eu me perguntava como elas sabiam quando tinham que acordar para não perderem o ponto. Todos pareciam um pouco estressados ou cansados. 
Um adolescente de aparentemente 17 anos chorava todo encolhido tentando não chamar atenção. Um velho rabugento reclamava para a sua mulher de alguma coisa sobre a refeição da noite anterior. A menina que lia um livro, cujo título não me recordo, derrubou uma lágrima que caiu meio tímida em seu colo. A mulher com flores nas mãos sorriu depois de ler um cartão que estava encaixado no buquê. O homem sentado deu seu lugar à uma velhinha, que lhe agradeceu depois de um sorriso. E a criança que chorava ganhou um doce de uma outra que observava preocupada a chorosa.
Afinal, eram todas pessoas que tinham suas próprias vidas, seus problemas e seus amores. Talvez estivessem mesmo cansadas e estressadas, mas elas me contavam suas belíssimas histórias naquele curto espaço de tempo em que esperavam seu ponto chegar.
Quando saí do metrô, aquela cidade já não era mais tão cinza assim. Eu já conseguia ver um pouco da felicidade que eu estava acostumada a ver no interior. E já quase me sentia parte de lá.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Você precisa conhecer: Lindsey Stirling.


Lindsey Stirling é uma artista que mistura violino clássico com dança moderna. Ela é compositora, coreógrafa e diretora das suas músicas. Segundo ela seu estilo musical é o reflexo da sua personalidade, e ainda diz que quer compartilhar sua crença de que todos devemos ser nós mesmos. Ela não está errada. Por ser tão ela mesma, seu talento já está sendo divulgado mundialmente. 
Eu não poderia deixar de compartilhar tamanha fofura, talento e inspiração - dá vontade guardar no bolso e levar pra casa.
Vejam que lindo o trabalho dela:


 
Já sabia desde o princípio que ela era um elfo.



Você pode ver mais dos vídeos dela no canal do Youtube. Ou conhecê-la pelo seu site.
Se gostou, compartilha!

sábado, 8 de setembro de 2012

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Venosa.

Venosa from oruminante on Vimeo.

"Uma menina acorrentada num calabouço. Uma mãe que ainda a trata como uma bonequinha. E lá de fora, sua outra à espera. Lá, entre as ruínas e os campos de girassóis mortos, a música que sua liberdade gosta de cantar… Ana Zumpano e Giovanna Degane protagonizam esta história sensual sobre como valhe a pena fugir de casa…"

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Diga-me.


"O que tinha a vida a prometer-me para eu defendê-la com bravura?"

O calor das coisas - Nélida Piñon.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Você chorará por mim?


Se não conheceres minha história, minha morte será indiferente. Não passará de mais uma vida no meio de outras 7 bilhões de pessoas - somadas a muitas outras que já são descartadas porque arredondam o número total de habitantes; além, claro, dos rejeitados que não são nem registrados como "cidadãos".
Sou como uma única célula que sozinha não faz diferença num organismo, mas que tem milhares de propriedades quando vista de um microscópio. 
Se não souber da minha vida, não farei diferença na tua, pois tu não sabe quem amei e por quem me sacrifiquei. Não sabe se tenho filhos ou se divaguei como uma alma penada por aí.
Se eu morrer sem lhe contar quem eu sou, tu saberá apenas que eu era mais um ser vivo que faleceu com outras 50 mil pessoas - ou mais - que morrem diariamente. Sei que ficará chocado a princípio, no entanto, logo a notícia virará história, e a história, uma lenda que nem todos acreditam ter acontecido.
É por isso que só faz sentido chorar por alguém quando conhece-lhe a vida. É por isso também que você chora pelo protagonista do drama, não pelo figurante. Se não quer enxergar meu interior nem atingir o fundo do meu coração, não precisa chorar nem tentar entender porque as outras pessoas derrubam lágrimas por mim. Mas se quiser, ainda posso lhe contar todos os meus segredos.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Nós Duas.


"Nós Duas" from oruminante on Vimeo.

"Era um desses dias banais. Ela me chegou com um olho tão aberto. Um olho que me lembrava uma antiga amiga, há muito nunca esquecida. Mas sua história era tão dura e triste, que às vezes me lembrava a minha... e eu já não sabia se falava dela ou de mim. Mas quem nunca foi triste? Por isso acho que falei de todos nós, e sobre como pode ser difícil voltar pra casa. Minha personagem é real. E ela conseguiu. Cumpriu sua promessa e realizou seu sonho. E só queria contar isso. Antes de tudo, pra si mesma. Essa é a história, que é mais ou menos assim..."
Via Nós Duas.

* Esse filme foi uma encomenda para ser passado numa formatura de medicina. Mas seria um desperdício pensar que ele foi feito para isso...

Ficha Técnica
Roteiro/direção/fotografia/montagem – Renato Cabral
Assistência e operação de câmera – João Motta
Produção – Jamile Salomão
Locução – Kalassa Lemos
Trilha Sonora - Ludivico Einaudi - Primavera
Realização – Oruminante, do roteiro à direção em storytelling (oruminante.com.br)
Apoio – Canção de amor filmes (cancaodeamorfilmes.com.br)
Obrigado – Luis Felipe Pimenta e Lara Stoque

Consegui uma pequena entrevista com o Renato Cabral, confiram:

domingo, 15 de julho de 2012

Filmografia: Tim Burton


Quem nunca assistiu um filme sequer desse grande mestre e brilhante diretor? O vídeo acima é especialmente para te deixar curioso do grande potencial desse ilustre homem. Não sabe qual dos filmes escolher? Aqui vão algumas dicas: 

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Intoxicação.



Como seriam as pessoas se não estivessem todas com intoxicação alimentar? Seríamos mais felizes se nossos tomates fossem orgânicos?
Eu não sei, mas recentemente li que tudo o que comemos, de um certo modo, ataca nosso sistema nervoso central.
O que me fez pensar: será que alguém é realmente puro naquilo que sente? Quantos de nós somos tão somente razões e sensibilidades induzidas por uma péssima alimentação; ou sentidos e lógicas propostos por um total desmazelo com nossa fisiologia?
Nosso sistema nervoso central está um caco.
Hoje trombei com um cara descendo do ônibus, e ele me olhou com sede de vingança.
Não por menos estava obeso, suava excessivamente debaixo dos braços e respirava com certa dificuldade ao se locomover.
"Deve comer coisas horríveis, salgadinhos industrializados, massa e muita, mas muita carne vermelha, só isso para explicar tamanha frustração no coração" - pensei.
Sei que pessoas de bem quase sempre comem coisas do bem.
Eu não me incluo nessa categoria, eu também sinto ódio as vezes, e em instantes morro de pena da pessoa e  quem odiei, porque odiar é um sentimento forte e não é digno de ovolactovegetarianos.
Não que eu seja um, regredi um bocado, mas gosto de me imaginar alguém rumo a alcunha de domador sensato de meu hipotálamo (se é que isso é possível) e do meu hábito alimentar.
Será que eu já me apaixonei por alguém porque comi mal?
Ou pior, odiei alguém legal porque não estava em pleno gozo de minhas faculdades mentais?
Alguém alguma vez esteve?
Hoje imaginei um mundo onde as pessoas dissessem oi e fossem sinceras ao perguntar se está tudo bem. Que se aproximassem de você e respeitassem sua liberdade em querer ser quem se é, que não achassem tolo aquele que sente necessidade demasiada de falar de si, como eu, ou ingênuo quem prefere se calar e ouvir mais do que dizer.
Que soubessem apreciar a vida sem a pressa induzida de um mundo que nos força a sermos fast-foods até naquilo que imaginamos de bom pra gente.
Enfim, que trombasse com você e risse porque o contato humano, ainda que acidental, é muito legal e faz rir.
Mas com nossos índices cada vez mais altos de colesterol, gorduras vegetais hidrogenadas acabando com nossos sistemas circulatórios, refrigerantes usando e abusando do sódio é difícil acreditar em um futuro melhor para nós e para nossas crianças.
No mais é esperar que não sejamos vítimas de nossos hábitos tortos, da preguiça da alma, das noites de sono mal dormidas, mas principalmente, da falta de água no corpo e dos molhos de tomates industrializados.
Malditos molhos de tomates industrializados!

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O melhor filho do mundo


Sempre que me imagino mãe, me imagino mãe de uma criança com Síndrome de Down. E isso me deixa tão feliz! Uma felicidade tão imensa que é difícil explicar. Já ouvi tantos casos de mães que rejeitaram o filho devido à alguma doença, que, provavelmente, tal fato me deixa um pouco preocupada com o futuro deles. Talvez essa seja a razão para eu me emocionar quando digo que terei orgulho do bebê que darei a luz. Talvez essa seja a razão para eu dizer que o amarei, independente de qualquer coisa. Talvez essa seja a razão para qualquer dificuldade ser apenas um aprendizado.
É claro que não deve ser nem um pouco fácil cuidar de uma criança especial. Não pela doença em si, mas pelo preconceito em torno disso. Que apesar de muitos afirmarem estar extinto, é inevitável olhares preconceituosos ou cheios de pena. Isso não me afetaria diretamente, já que eu seria a pessoa mais feliz do mundo por saber que uma criança especial está sendo amada e não abandonada. Tais olhares só me afetariam a partir do momento que meu filho sentisse isso.
Caso isso acontecesse, estou certa de que seria uma luta interminável para colocá-lo na sociedade e fazê-lo se sentir parte dela. Fazê-lo prestar atenção em quão importante ele pode ser para todas as pessoas à sua volta. Fazê-lo acreditar que como qualquer outra pessoa, ele é capaz de tudo. E eu venceria essa luta.

Por isso, querido, não se preocupe! Eu serei a melhor mãe do mundo.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Por um triz.


Se eu tivesse uma doença letal, daquelas que não te impõem uma data, mas que dizem que é pouco tempo, jogaria tudo para o alto e viveria a vida que eu sempre quis. Largaria colégio, emprego, e qualquer outra obrigação que remeta ao futuro. Comeria todos os doces mais gordurosos do mundo, e beijaria os rapazes mais bonitos daquela festa. Leria os livros mais caros da prateleira e viajaria o mundo conhecendo novas pessoas e novos amores. Não me apegaria à ninguém, claro. Visitaria a Torre Eiffel, as pirâmides do Egito, e os parques e museus do Canadá. Passaria as noites na beira da praia e dormiria de baixo das estrelas. Ah, faria tanta coisa. É claro, seria tudo na medida do possível. No entanto, veja só como a vida é engraçada: eu só viveria "feliz" a partir do momento que a vida estivesse por um triz. É como se na minha convicção eu existisse pra sempre. É como se eu tivesse certeza de que morrerei depois dos 90, por isso teria anos de vida pela frente. É como se eu adiasse essa felicidade porque supostamente viverei tempo suficiente para que ela chegue e permaneça.
"Vivo" o hoje pensando no futuro, quando ele pode nem existir. Talvez eu morra amanhã... de infarto, ou assassinato, ou atropelamento. Eu sei, há infinitas possibilidades. Mas por algum motivo não deixo de pensar que preciso estudar, cursar uma faculdade, trabalhar, ganhar dinheiro, casar, e finalmente, quem sabe, ser realmente feliz. Talvez isso seja culpa da sociedade que nos impõe tais "metas" para a vida. Mas talvez isso seja minha culpa por apenas acreditar neles, sem contestar qual é o real propósito da vida.

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